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A violência rompe não só a vida, mas também o senso de segurança e confiança no mundo, e isso pode impactar profundamente o modo como a pessoa vive o luto.

Quando estamos em um ambiente seguro e previsível, criamos uma sensação de estabilidade, uma crença de que o mundo funciona de determinada forma (como explicou o filósofo Charles Peirce). Mas quando algo rompe essa estabilidade, como uma perda, essa crença é abalada.


O luto, então, pode ser entendido como um processo de reconstrução dessa relação com o mundo.


Segundo Vittorio Talone (2013), ele acontece em etapas que se encadeiam:

            1.         Crença – quando vivemos com base em hábitos e certezas;

            2.         Rompimento – acontece uma experiência extrema (como a morte);

            3.         Dúvidas – surgem lembranças dolorosas e questionamentos sobre o sentido da vida;

            4.         Investigação – busca por significados e tentativas de reorganizar a realidade;

            5.         Nova crença – criação de novos hábitos e formas de se relacionar com o mundo.


Por isso, o luto é um processo corporal, simbólico e relacional. Ele envolve o corpo (que sente a dor), os símbolos (como as lembranças e rituais) e as relações (as conexões que sustentam o viver).


O luto não é igual para todas as pessoas!

Cada vivência é atravessada por histórias, crenças e contextos diferentes.

Quando a perda acontece de forma violenta, esse processo pode se tornar ainda mais difícil.

A violência rompe não só a vida, mas também o senso de segurança e confiança no mundo, e isso pode impactar profundamente o modo como a pessoa vive o luto.


A pesquisadora Natália Caldas Reis (2025) destaca que compreender o contexto social e emocional de quem viveu uma perda violenta é essencial para distinguir um luto natural de um luto que se tornou adoecido.


Como lembra o sociólogo Michel Wieviorka (1997):


“A violência não é algo fixo. Ela muda com o tempo, acompanhando as transformações sociais e culturais. Hoje, ela muitas vezes se expressa de forma individualizada, simbólica ou até mesmo espetacularizada, refletindo um tempo em que o diálogo se enfraquece e muitos buscam visibilidade através da dor.”


Em outras palavras, entender o luto diante da violência é também olhar para a sociedade em que vivemos,  uma sociedade que, muitas vezes, produz e reproduz a dor de maneiras sutis e coletivas.



Referências

DA PAIXÃO, Natália Caldas Reis. O processo de luto em pessoas que perderam seus entes queridos de forma violenta. Revista Interdisciplinar Científica Aplicada, v. 19, n. 3, p. 1–16, 2025.

TALONE, Vittorio. O encadeamento do luto. Revista Crítica de Ciências Sociais, Coimbra, n. 101, p. 57–78, 2013.

WIEVIORKA, Michel. La violence. Paris: Balland, 1997.


Texto por: Déborah Brito de Oliveira e Mariana Souza Neto

 
 
 

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Déborah Brito de Oliveira

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