Isabel
- Instituto de Tanatologia e Luto

- 14 de jan.
- 2 min de leitura
Atualizado: 19 de fev.
Ao ver, a notícia da morte de Isabel, o tempo recuou em mim. Voltei aos anos em que comecei a acompanhá-la e, junto com sua história, fui testemunha do peso lançado sobre ela: a violência velada, a desconfiança e as palavras duras que ecoavam nas redes sociais.
As perguntas surgiam como sentenças:
Como alguém pode sorrir diante do câncer?
Como amar, casar, gerar vida quando o corpo adoece?
Como seguir sonhando quando a finitude se aproxima?
Será verdade? Será encenação?
Essas perguntas nunca foram sobre Isabel. Foram sobre a nossa dificuldade de suportar que a vida não obedece a roteiros rígidos.
Elas revelam o quanto ainda precisamos crescer, estudar, amadurecer e romper com os tabus que insistem em reduzir o adoecimento à ausência de alegria, desejo e futuro.
O câncer é território árido. Ninguém o atravessa ileso. Ele carrega dor, medo, estigmas e silêncios. Mas nem mesmo o câncer tem o poder de suspender a condição humana.
O adoecimento não cancela o amor, não silencia o desejo, não impede a vida de acontecer, mesmo frágil, mesmo breve, mesmo atravessada pela incerteza. É possível viver com câncer. É possível amar, construir vínculos e realizar sonhos sob a sombra da finitude.
O que não deveria existir, jamais, é a invasão cruel de olhares estranhos sobre a história do outro. Ninguém tem o direito de legislar sobre a dor alheia, de ditar como alguém deve sentir, viver ou morrer. O sofrimento já basta por si; não deveria ser ampliado pelo julgamento, pela suspeita ou pela desumanização.
Isabel foi ferida por palavras, mas também foi abrigo. Foi alvo de ataques, mas tornou-se farol. Em vida, iluminou caminhos invisíveis, autorizou existências possíveis e ofereceu companhia a quem atravessava a noite.
Que agora ela encontre a luz.
Porque, enquanto esteve aqui, ela foi luz para muitas pessoas.



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