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Isabel

Atualizado: 19 de fev.

Ao ver, a notícia da morte de Isabel, o tempo recuou em mim. Voltei aos anos em que comecei a acompanhá-la e, junto com sua história, fui testemunha do peso lançado sobre ela: a violência velada, a desconfiança e as palavras duras que ecoavam nas redes sociais.


As perguntas surgiam como sentenças:

Como alguém pode sorrir diante do câncer?

Como amar, casar, gerar vida quando o corpo adoece?

Como seguir sonhando quando a finitude se aproxima?

Será verdade? Será encenação?


Essas perguntas nunca foram sobre Isabel. Foram sobre a nossa dificuldade de suportar que a vida não obedece a roteiros rígidos.

Elas revelam o quanto ainda precisamos crescer, estudar, amadurecer e romper com os tabus que insistem em reduzir o adoecimento à ausência de alegria, desejo e futuro.


O câncer é território árido. Ninguém o atravessa ileso. Ele carrega dor, medo, estigmas e silêncios. Mas nem mesmo o câncer tem o poder de suspender a condição humana.

O adoecimento não cancela o amor, não silencia o desejo, não impede a vida de acontecer, mesmo frágil, mesmo breve, mesmo atravessada pela incerteza. É possível viver com câncer. É possível amar, construir vínculos e realizar sonhos sob a sombra da finitude.


O que não deveria existir, jamais, é a invasão cruel de olhares estranhos sobre a história do outro. Ninguém tem o direito de legislar sobre a dor alheia, de ditar como alguém deve sentir, viver ou morrer. O sofrimento já basta por si; não deveria ser ampliado pelo julgamento, pela suspeita ou pela desumanização.


Isabel foi ferida por palavras, mas também foi abrigo. Foi alvo de ataques, mas tornou-se farol. Em vida, iluminou caminhos invisíveis, autorizou existências possíveis e ofereceu companhia a quem atravessava a noite.


Que agora ela encontre a luz.

Porque, enquanto esteve aqui, ela foi luz para muitas pessoas.




 
 
 

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Déborah Brito de Oliveira

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