Luto por uma amizade: O Laço que o Tempo Não Rompe
- Instituto de Tanatologia e Luto

- 29 de nov. de 2025
- 3 min de leitura
Atualizado: 3 de dez. de 2025
Queridos leitores, hoje venho falar de algo que nasce de maneira tão espontânea que, quando percebemos, já faz morada em nós: a amizade. Esse laço que criamos sem aviso, que nos sustenta nos dias bons e nos ampara nos dias difíceis. Ele é forte, mas ao mesmo tempo tão delicado quanto o sopro da vida.
Milton Nascimento canta que “amigo é coisa para se guardar debaixo de sete chaves, do lado esquerdo do peito”. Gosto de imaginar que cada amizade é como uma pequena chama que carregamos nesse lado do peito: iluminando, aquecendo e dando cor aos nossos dias. Algumas chamas são tão bonitas que parecem eternas. E talvez sejam, mesmo quando a vida insiste em apagar a presença física de quem amamos.
Porque junto ao laço da amizade, vem também a possibilidade da perda. E uma das mais dolorosas é a morte de um amigo. Como continuar depois de uma ruptura tão profunda? Como seguir quando o mundo perde o sentido, quando o brilho das coisas parece ter sido arrancado das nossas mãos?
É sobre isso que quero contar.
Durante minha trajetória escolar, fiz uma amizade especial.Ela tinha um sorriso largo e um coração ainda maior. Nossa diferença de idade era de apenas um dia, eu nasci em 14, ela em 13 e talvez por isso sempre brincávamos que tínhamos sido entregues ao mundo juntas, quase como irmãs de aniversário.
Com ela, compartilhei segredos, risos, sustos, planos e aqueles pequenos momentos que só ganham significado na história que construímos com alguém.
Numa noite de domingo, a vi rapidamente. Ela estava radiante, com aquele sorriso único que parecia acender qualquer lugar. Nos cumprimentamos, trocamos uma alegria breve e cada uma seguiu seu caminho.
Na segunda-feira de manhã, recebi a notícia da sua partida.
O telefone tocou cedo. A voz do outro lado dizia palavras que minha mente se recusava a compreender. Por alguns segundos, o mundo simplesmente apagou, como se um cenário inteiro tivesse perdido as cores. A sensação era de estar presa num sonho estranho, daqueles que a gente quer acordar, mas não consegue. Infelizmente, não era um sonho. Era verdade.
A notícia se espalhou rapidamente, e todos ao redor ficaram em choque. Como alguém tão jovem, com uma vida inteira pela frente, podia partir assim? A morte, nesses momentos, parece contradizer tudo aquilo que acreditamos ser o “curso natural” da vida. E então os sentimentos se embaralham: negação, raiva, tristeza profunda, uma tentativa de barganha silenciosa, até que, aos poucos, a realidade se impõe e traz consigo uma aceitação dolorida.
Acompanhamos seu enterro, e foi ali que a ausência tomou forma: pesada, irreparável.Com o tempo, aprendemos a viver com essa ausência, mas ela nunca desaparece. Às vezes, num dia comum, vejo algo que ela gostava, ou escuto uma música que ela amava, e tudo volta: a saudade, o amor, o inconformismo. Mas nesses dias nublados e escuros também nasce uma gratidão imensa por ter conhecido alguém tão sensível, tão bonita de alma, tão inteira no pouco tempo que esteve aqui.
Com o passar dos meses, essa perda começa a se integrar ao cotidiano. Chega um momento em que pensamos na pessoa e não choramos mais; não porque a dor se foi, mas porque encontrou um lugar silencioso dentro de nós. Um canto de memória onde mora não a morte, mas o que houve de vida.
Como canta Milton em outro verso que sintetiza tudo isso:
“E quem voou, no pensamento ficou Com a lembrança que o outro cantou.”
E é por isso que escrevo este texto: para que minha amiga, que voou, permaneça, através da memória que escrevo aqui.
Queridos leitores, convido vocês a também abrirem esse espaço dentro de si, para pensar suas próprias perdas, seus próprios amigos que ficaram no pensamento. Porque falar de luto é, no fundo, falar do amor que permanece.
Texto por: Erlane Santos de Jesus e Libiny Edwirges Araújo dos Santos





Que texto emocionante.
Quanta sensibilidade e amor nas suas palavras. Que você encontre conforto nesse momento. Já perdi muitos amigos, foi difícil lidar e ainda continua sendo muito difícil.
Texto lindo e muito bem elaborado.
Texto muito emocionante. Reflete a realidade de uma perda como essa.
Este texto, em particular, tocou na minha alma de uma forma profunda, lembrar de quem nós amamos é sempre uma tarefa difícil, mas é honrar a memória e o afeto que um dia tivemos.